domingo, 26 de abril de 2015

Dormiu na Praça

 Um amor incorrespondido derruba até o mais nobre dos homens, imagina então o cabra mais sem-vergonha de todo leste Capital!
 Zé Ferreira na sua vida jovem e precoce, nunca, mas nunca mesmo havia amado alguma garota, gostar sim, amar não. Então de tão Ferreira que era passou dois anos da vida adolescente sem namorar, mas não só. Era desprovido de beleza mas tinha papo, e charme, era um chamego misturado com uma bruteza e ás vezes sisudez que atraia mulher em demasiado.
 Acontece que chegando pra estudar naquele sujo bairro do Belém conheceu a desgraçada que mudaria seu boêmio destino. Mari Luna era uma garota linda, meiga, magra que só a moléstia, (isso foi um problema pra Zé Ferreira que era achegado numa mulher mais corpuda, mas depois a paixão falou mais alto que as aparências), e queria Zé muito bem... Para a amizade.
 Então o nosso amigo meio nordestino, meio sulista, foi se vendo cada vez mais cativado pela garota do laço vermelho, até que um dia, ah patrão, que horror! Dona Mari Luna se encantou por um skatista e foi direto para os braços dele.
 Acabara a aula, fazia um calor da lascado, Zé Ferreira puxou um maço de Eight (cigarro do Paraguai) do bolso e ascendeu um, do outro lado do sujo Largo São José do Belém estava sua amada, com o desgraçado do skatista.
 O sangue foi lá em cima, os olhos arderam, e o coração bateu forte, o semblante de decepção escrevia a palavra “CACHAÇA” na testa de nosso amigo Zé Ferreira.  Foi ao bar, conseguia tomar umas lá porque o dono era pernambucano e Zé fizera amizade com ele. Entrou no boteco, e contou toda a história para o sujeito, que colocou uma dose da melhor pinga que havia no estoque e falou:
-Tome, por conta da casa, pra tu recuperar o resto de dignidade que te resta... Não fique acabrunhado não, a vida tem dessas coisas.
- Hoje é dia de beber “dimasiado”, e chorar a ingratidão dessa dona... “Inté” poema eu fiz- Disse indignado, e apontando pra si- Eu sou um bruta de um otário!
- Oxente, tome a suas, mas amanhã é outro dia, e vida segue!
- Deixe o amanhã pra amanhã ora! O hoje tá aqui!
 Pegou algumas notas do bolso e comprou uma garrafa de Pitú e foi-se sentar na praça, deitou-se no banco e ali sonhou com sua Mari Luna, que não era dele, mas que um dia há de ser, no mais, nem Mari Luna, mas sim a sua Mari de Ferreira.
 No outro dia chegou todo vomitado em casa, tomou um banho, e não foi pra aula pois estava ruim demais. Falou aos pais que tinha dormido na casa de um amigo e por isso escapou de levar uma surra... Mas não se importaria,  nada doeria mais que seu coração.






terça-feira, 21 de abril de 2015

Introdução

O jogo da nova sociedade periférica brasileira é simples, (pelo menos aqui em São Paulo) estudar numa escola estadual porcaria até o final do 2° fundamental  e então ir pra um ETEC, fazer o ensino médio junto com técnico. Se você opta por um curso comum (ADM, Finanças etc) sempre haverá uma escola técnica perto. Agora, meu amigo, se você quer ser qualquer coisa da área do design, da comunicação etc. E mora no extremo leste, prepare-se, você vai  viajar e passar seu tempo numa condução nada agradável.
   Meu nome está ali do lado, mas aqui na terra do meio real meio faz de conta, vamos dizer que meu nome é Zé Ferreira, sou suburbano, Itaim Paulista pra ser mais exato, do lado paterno tenho o sangue pernambucano, do lado materno é paranaense, sou o equilíbrio de tudo o que é gosto brasileiro, sou a face da lambança nacional.  Por um erro de atenção não faço o ensino médio integrado, e sim o regular na Extensão Amadeu Amaral localizada no Belém, naquele sujo, imundo bairro do Belém, e o técnico na ilustre ETEC Carlos de Campos, no horrendo ex bairro operário do Brás.

Os episódios aqui relatados senhores não são 100% verídicos, são uma sátira da nossa atual situação política, cultural, educacional, filosófica e ética. Quero mostrar a vida dos periféricos, dos descendentes de imigrantes e migrantes, dos filhos dos pedreiros, das domésticas, dos caminhoneiros, dos auxiliares e técnicos em farmácia. Serão mesclados em pontos da cidade, seja no Centro, ou na periferia, o que importa é rir para não chorar da nossa juventude que construirá a nação do amanhã.